quarta-feira, 2 de junho de 2010

A vez das vaginas

Discutir a relação que a mulher estabelece com o seu corpo, mais especificamente, com a sua vagina. Esse foi o objetivo de Eve Ensler ao escrever e atuar na peça “Os Monólogos da Vagina” (Título original: “The Vagina Monologues”). Segundo Ensler, a ideia de montar o espetáculo veio após conduzir entrevistas, em cinco anos, com 200 mulheres, sobre sexo, corpos, violência contra as mulheres, etc. Entretanto, suas vaginas eram sempre o foco central das conversações.

A primeira versão do espetáculo, escrita em 1996 – e desde então muitas vezes revisada-, foi traduzida para 45 línguas e contou com montagens em mais de 130 países. Em 2002, a rede de televisão por assinatura HBO convidou Ensler para fazer uma versão televisiva de “The Vagina Monologues”, criando um produto audiovisual que trazia um “ar” teatral – peça filmada – e, ao mesmo tempo, documentarista.

(Clique aqui e faça o download da adaptação televisiva feita pela HBO de “Os Monólogos da Vagina”.)

Nos intervalos entre os monólogos, interpretados pela própria autora, ela faz alguns comentários sobre as entrevistadas, sobre o trecho que será assistido ou conta alguma curiosidade sobre a temporada de viagens da peça pelos EUA. Também são apresentadas algumas gravações das entrevistas feitas por Ensler durante o período em que pesquisava sobre as mulheres e suas vaginas.

Entretanto, a inspiração para os monólogos não veio somente das entrevistas realizadas nos EUA. Eve Ensler conta que alguns fatos em jornais e revistas a influenciaram como, por exemplo, quando viu na capa de um jornal a foto de seis jovens mulheres bósnias que tinham acabado de serem recuperadas de um campo de estupro, na antiga Iugoslávia. A atriz-roteirista decidiu ir até o país, durante a guerra, buscar e entrevistar essas mulheres em campos e centros. Mais um monólogo surgiu.


Os monólogos versam desde a vagina e os seus pêlos, até a primeira e traumática experiência de orgasmo de uma mulher quando era jovem e o seu bloqueio, desde então, com o seu corpo, até os 75 anos de idade. Contam mais: uma mulher que, após violências na sua vagina passando a renegá-la, redescobre seu órgão sexual com a ajuda de outra mulher; e um desabafo: as vaginas sentem muita raiva com tampões e objetos médicos gelados chegando sem serem convidados.

Aqui um dos monólogos feitos por Eve Ensler - "The Little
Coochie Snorcher That Could"



É claro que Eve precisou selecionar, dentre um grande universo, quais seriam aquelas entrevistas que seriam encenadas. Entretanto, as entrevistas foram colocadas quase que na sua íntegra na peça. A linguagem é clara, objetiva e sem falsos pudores. Como a própria Ensler diz no livro “The Vagina Monologues”: Alguns dos monólogos são quase entrevistas literais, outros foram editados e outros começaram como uma semente de uma entrevista e acabaram senão muito divertidos. O monólogo que se segue [o primeiro] está quase como o ouvi.

(Clique aqui e faça o downlod do livro.)

Mesmo com grandes críticas, é interessante perceber o lugar em que o corpo feminino é colocado em “Os Monólogos da Vagina”. Logo se pode lembrar o que diz Giovanni Berlinguer: “O próprio corpo da mulher [sempre foi] considerado, sobretudo, como “canal de parto”.” (BERLINGUER, Giovanni, 1993. A concepção biológica da mulher: do preconceito à ciência. In: _____ Questões de vida. Ética. Ciência. Saúde. Salvador-São Paulo-Londrina, APCE-HUCITEC-CEBES, 1993, p. 101-116.). Aqui, a vagina e o corpo feminino tem voz e vez, e não só para dar a luz.


Postagem feita por Luis Fernando Lisboa

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